Noticiando uma controvérsia: um adendo

Além de um artigo jornalístico poder explorar conjecturas e hipóteses de forma um pouco mais livre do que um paper científico, defendo que haja uma justificativa ainda mais importante e mais convincente para o exagero do noticiário de ciência com relação ao êxito limitado da Mond.

A Mond é uma ilustre desconhecida. Fora da comunidade científica (eu diria cosmológica), pouca gente sequer ouviu falar dela. Sua importância é relativa à matéria escura. Quanto maior seu sucesso, menor a necessidade de lançar mão de uma entidade exótica. É preciso dizer (e aqui é Carroll quem informa) que mesmo com a eventual comprovação da gravidade newtoniana modificada, a cosmologia ainda não dá conta de explicar o que observa sem a matéria escura; por outro lado a existência de matéria escura, se comprovada, não exclui a necessidade de pensar numa gravidade modificada. Mas não dá pra negar que o sucesso de uma pode ter consequências negativas à amplitude de outra.

Portanto, como noticiar um estudo que relata um pequeno mas significativo sucesso da Mond? Há uma outra pergunta embutida aí: qual é o interesse desse resultado ao estado atual de conhecimento da cosmologia? A resposta deve, necessariamente, incluir um desafio à matéria escura, essa sim, habituê do noticiário de ciência. Não é apenas para apimentar a notícia que os jornalistas estamparam a matéria escura na manchete. Foi uma forma de mostrar ao público qual a importância daquele estudo relativamente às contendas disputadas em sua arena. Isso deve ser uma das prioridades do jornalismo de ciência. Se é um exagero dizer que a Mond coloca um desafio sério à existência da matéria escura, seria omissão não informar que há uma relação entre o sucesso de uma teoria marginal e os destinos da explicação dominante.

– Aristarco

Noticiando uma controvérsia

No imbróglio sobre se a Mecânica Newtoniana Modificada (Mond) coloca ou não a existência da matéria escura em xeque, faltou falar alguma coisa sobre o papel desempenhado pelo jornalismo de ciência neste caso específico.

A postura do cosmólogo Sean Carroll foi, além de argumentar contra a validade da Mond, a de dizer que parte da responsabilidade pelo fuzuê armado contra a matéria escura partiu da forma como o jornalismo de ciência é geralmente praticado (especialmente em veículos não especializados). “Ninguém leria um artigo entitulado Galáxias ricas em gás confirmam previsão na teoria da gravidade modificada“, diz Carroll, “ou, pelo menos, poucas pessoas estariam interessadas nisso quando comparado a evidências que se chocam frontalmente contra a matéria escura”. A matéria da BBC saiu com a manchete: “Matéria escura desafiada por resultados de galáxias cheias de gás” e outros veículos acompanharam o tom.

Vamos com calma. É muito difícil imaginar alguma ideologia fora dos campi, gabinetes, observatórios e agências de financiamento para pesquisas, que se interesse por minar ou promover a matéria escura. Quem zela por uma ou outra teoria são os cientistas. O público não está nem aí para o destino de uma ideia esotérica como a matéria escura (no bom sentido de esotérico, diga-se). No máximo o público quer saber qual o destino de toda a ciência e não de uma teoria determinada. Se levarmos em consideração o que os jornalistas pensam ser a expectativa do público, então o que o público quer são novidades. Quanto mais polpuda a novidade, mais garrafais e incisivas as manchetes, mais cliques, mais leitores, mais grana. Carroll está ciente disso e acusa os jornalistas de terem criado um hype onde não existe tanta novidade assim: “vamos apimentar um pouco a história. Vamos destacar a conclusão mais dramática que podemos imaginar e enterrar quaisquer ressalvas até o final”, dizem os jornalistas na cabeça do cosmólogo.

Sabemos que ele não está essencialmente errado (a mídia é uma maquininha bem suja, mesmo) mas vamos acompanhar seu argumento. Primeiro, um estudo de física é publicado numa revista conceituada. Press-releases são divulgados e caem nas redações. O que o estudo diz é que as previsões de uma teoria em desenvolvimento correspondem às observações de um tipo bastante peculiar de galáxias. Os jornalistas de ciência, informados de que a teoria em questão (a Mond) pode significar uma explicação alternativa à hipótese dominante (a matéria escura), procuram explorar os resultados positivos para a teoria alternativa e conjecturam possíveis consequências de um hipotético sucesso retumbante da Mond. Isso é apimentar a história, segundo Carroll. A matéria escura está muito bem, obrigado. A Mond não é nada disso que estão pensando. Etcetera.

Tudo isso é bastante razoável e é difícil discordar do cosmólogo. Mas o que também deveria ser lembrado é que o discurso do jornalismo de ciência é fundamentalmente diferente do da ciência. Cumpre papel social diferente, constitui-se em meios diferentes, tem objetivos diferentes. Deve ser permitido ao jornalista ou ao science writer dar pequenos saltos em seus artigos ou reportagens que aos cientistas devem estar terminantemente proibidos. Alguém que escreve sobre ciência deve ter o olhar voltado um pouquinho mais para o horizonte do que o olhar de toupeira do cientista. Por isso, é inaceitável que um paper alegue estar propondo um desafio sério a uma hipótese rival se não comprova que a sua hipótese tenha sido confirmada ou que o lado adversário tenha sido refutado. O que se faz em ciência é exatamente isso o que o paper noticiado fez: “estudamos este tipo de galáxias e os resultados foram consistentes com nossa teoria”. Mas enquanto o estudo nem de longe aponta para um desafio sério à existência da matéria escura, é interessante que o noticiário de ciência esteja atento ao fato de que há explicações alternativas. É muito melhor para a própria ciência que o jornalismo faça isso, em vez de ficar preso a apenas uma única explicação dominante, que sequer dá conta completamente do recado e cuja entidade protagonista ainda não foi incontrovertidamente observada, detectada, comprovada.

É fato que a Mond ainda não tem os mesmos méritos explicativos da matéria escura. Como sou apenas um anão debaixo da mesa ouvindo cosmólogos e físicos conversando, não tenho outro critério para julgar a questão que não o sociológico: a imensa maioria dos cientistas da área se satisfazem com a matéria escura para explicar a física bizarra das galáxias. Não, a Mond ainda não é um rival à altura da matéria escura e ainda não estamos numa crise de paradigmas (há que se dizer: nem matéria escura, nem a Mond constituem paradigmas, mas apenas teorias ou hipóteses rivais). Mas é necessário que a existência de tentativas alternativas sejam colocadas ao alcance do público. Muitas vezes a matéria escura é tratada como fato consumado, como entidade seguramente comprovada. Se o jornalismo de ciência se render a isso e pisar sobre ovos quando tratar de explicações alternativas, ele estará transmitindo uma imagem caricatural da ciência e do que significam dentro dela uma hipótese, uma teoria e uma evidência.

Se “cientistas e jornalistas têm a responsabilidade conjunta de fazer um trabalho melhor ao tornar as coisas mais claras, e não apenas torná-las mais empolgantes”, como diz com toda a razão Carroll, ambos também tem a responsabilidade de mostrar que a ciência é sempre uma busca em aberto, indefinida e interminável, e que às vezes há alternativas para conclusões recorrente e erroneamente tratadas como fato.

– Aristarco

Dark matter matters, reloaded

O Aglomerado-Bala

Dêem um desconto para o título com o trocadilho mais batido em 10 das 11 dimensões do espaço-tempo, pois estou com certa pressa.

O astrônomo e blogueiro Phil Plait, um dos nossos favoritos e mais conhecido como “o cara do Bad Astronomy“, linkou hoje um post de Sean Carroll (cosmólogo e também blogueiro) que corre para apagar o fogo (mencionado no nosso post anterior) e sustenta o seguinte:

a) a Mond é feia; b) a Mond não bate com os aglomerados (de galáxias, suponho); c) mesmo com a Mond, ainda é necessário considerar a matéria escura; d) a Mond sequer serve para todas galáxias; e) a Mond não se adapta à radiação cósmica de fundo (aquele tal de “cano fumegante” do Big Bang); e, finalmente, f) “a gravidade nem sempre aponta na direção onde a matéria ordinária está” – seja lá exatamente o que isso significa para a física – dando como exemplo cabal a existência do Bullet Cluster, ou Aglomerado-Bala.

Aglomerado-Bala… gostei deste nome. O Aglomerado-Bala é constituido por dois aglomerados de galáxias colidindo.

Essa colisão de jamantas é vista por Plait como o argumento decisivo contra a Mond e como o motivo de “tão poucos astrônomos duvidam seriamente da existência da matéria escura”. Até a Wikipedia informa que o Bullet Cluster é tido como a melhor evidência da matéria escura. Quando abordou o problema, Carroll foi taxativo: “a matéria escura existe”. Mesmo assim, negou que a fugidia matéria explique completamente o que se vê nos super-telescópios e que talvez sejam necessárias outras explicações para dar conta das observações.

Plait exagerou um pouco a postura de Carroll e disse que “não há motivos para se preocupar com a Mond” e que “a dita Mond realmente não funciona”. A tal de Mond pode até ser essa inutilidade toda mesmo, mas a brigada anti-incêndio ter sido acionada dessa forma só me convence de que a peleja pode não estar jogada. Assim como pensam muitos comentaristas nos blogs de ambos os cientistas.

Update: Ethan Siegel tem um post bastante didático sobre o incômodo da maior parte dos cosmólogos com a notícia de que a Mond se revelou uma desafiante, uma alternativa, para a matéria escura. É muito bacana, embora Siegel demonstre sua argumentação com outros exemplos da história da ciência que justificam o pé-atrás com relação a possíveis suposições de existência de determinada coisa pelo simples fato de que ela salva nossa explicação atual de como o mundo funciona (visto que é muito mais fácil ter resultados publicáveis com isso do que elaborar uma explicação alternativa desde o zero).

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Minuto epistemologia.

A conclusão de espectador que posso tirar: este imbróglio é a evidência de que o conceito de evidência em ciência é tudo menos simples. Plait e Carroll podem estar certos com relação à matéria escura, mas talvez devessem considerar as questões epistemológicas que circundam as evidências em campo tão problemático quanto o da cosmologia. Especialmente quando afirmam ser evidência direta da matéria escura conclusões extraídas com interpretação e análise de uma observação de colisão entre aglomerados de galáxias.

E uma pergunta: deveríamos exigir reflexões epistemológicas dos nossos cientistas?

– Aristarco

Uma desafiante para a matéria escura

"E aqui, como vocês podem observar com clareza, uma amostra de matéria escura"

Uma vez eu perguntei no meu ex-blog: existe mais matéria escura entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, ou nossa vã filosofia ficou gagá de vez?

Uma matéria de Jason Palmer publicada ontem no site da BBC noticia a publicação de um estudo que aplica a chamada Dinâmica Newtoniana Modificada para explicar o movimento de rotação da matéria nas galáxias.

Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa tal dinâmica modificada, embora tenha aparecido pela primeira vez em publicação acadêmica ainda em 1983. A Mond (sigla de Modified Newtonian Dynamics) surgiu das mesmas anomalias que motivaram a maior parte da comunidade de físicos a aventar e, depois, a dar como certa a hipótese ad hoc de que há algum tipo de matéria que interage apenas gravitacionalmente com a matéria bariônica (a de que são feitas desde as estrelas até nós, vermezinhos cósmicos).

De maneira simplificada (mesmo porque eu nunca conseguiria entender e explicar melhor do que isso), o modelo atual da gravitação prevê que as partes exteriores de uma galáxia espiral se movimentariam mais lentamente do que o seu interior. Mas o que se observa é a parte exterior girando ao redor do núcleo galático na mesma velocidade das regiões interiores. As galáxias giram mais uniformemente do que a teoria prevê. (Para uma explicação profissional do problema, clique aqui). O que dá numa bifurcação tenebrosa para os físicos: ou a teoria gravitacional está quebrada ou há alguma outra coisa que não conhecemos dando coerência para o movimento das galáxias. A primeira alternativa, suponho, encontra resistência pois, mesmo que a teoria precise de uma correção apenas ao nível das galáxias, ela perde sua universalidade. A universalidade sempre foi um dos grandes sustentáculos sociais e culturais da teoria newtoniana, que durou dois séculos. Por isso, a segunda alternativa tem sido considerada pelos físicos com muito mais, digamos, carinho. (Justiça seja feita: é verdade que há alguns indícios da existência da matéria escura, embora longe de qualquer conclusividade. O principal deles é a aparente formação de lentes gravitacionais onde não há qualquer matéria observável).

Estaremos presenciando um período de crise da cosmologia? É possível, principalmente se levarmos em consideração a clássica estruturação das revoluções científicas de Thomas Kuhn. Há uma grande anomalia empírica (observacional/experimental) que o modelo atual não explica. Há hipóteses ad hoc tentando salvar o modelo, mas há outra tentativa válida de adaptação teórica. Logo depois, prevê a estrutura kuhniana, vem a crise.

A matéria escura ainda aglutina a maior parte dos físicos a ao seu redor, mas, como diz Palmer, a Mond “conta com vários cosmólogos proeminentes entre seus seguidores”. A contenda entre modelos diferentes pode estar apenas começando.

Acompanhemos os próximos passos com atenção.

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Leitura adicional: O enigma da matéria escura, na Scientific American.

– Aristarco