Hoover “premiado” por James Randi

Dias atrás, foi agraciado com o Prêmio Pigasus o Dr. Richard Hoover, engenheiro da NASA e autoproclamado astrobiólogo que alegou, no início do mês passado, ter encontrado evidências de fósseis de bactérias alienígenas. O artigo que sustenta a alegação, publicado numa revista científica de baixa credibilidade entre os cosmólogos, chegou aos principais órgãos noticiosos mas recebeu uma saraivada de críticas.

O Pigasus é uma premiação irônica. Junto com o Ig Nobel, é o Framboesa de Ouro da ciência. Promovido por James Randi, ex-ilusionista e conhecido militante cético que costuma desmascarar alegações fantásticas e fenômenos paranormais ou sobrenaturais, esse prêmio é, certamente, a cereja do bolo de quem destroçou o trabalho de Hoover na internet.

Clique aqui para conferir todos os laureados. Quando uma figura como Randi faz esse tipo de chacota e te coloca no mesmo nível de Alan “Antivax” Wakefield, você oficialmente virou um saco de pancadas.

Chama a atenção o fato de que esta é a única atualização sobre a controvérsia que incendiou a blogosfera de ciência há um mês atrás (veja, abaixo, nossa série de posts) e rapidamente perdeu força. Não encontrei qualquer entrevista com Hoover, sequer alguma declaração sua em defesa de seu artigo. Ninguém procurou o cara ou ele se escondeu? É uma pena que o debate não tenha ocorrido como seria de se esperar. O fato é que seu paper ficou à mercê da enxurrada de críticas e parece que vai ser enterrado na vala comum dos resultados anômalos e da má ciência, sem sabermos exatamente se o trabalho é uma coisa ou outra.

Isso me lembra uma impagável história contada pelo filósofo da ciência Imre Lakatos, que ilustra como a comunidade científica pode varrer para debaixo do tapete resultados que conflitam com o consenso corrente. Mas ainda tenho que traduzí-la. Fica para outro post.

– Aristarco

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A NASA fala, os pares falam

Rosie Redfield publicou uma declaração de Lynn Rothschild, astrobióloga da NASA. (Redfield pega pesado e diz que Lynn é uma astrobiológa de verdade. Mas não deixa de ter razão, pois Hoover, o autor do paper, é engenheiro, conforme a própria Lynn faz questão de ressaltar). Em resumo, Lynn está preocupada com a reputação dos cientistas da NASA, já arranhada pelo caso da bactéria de arsênico. A astrobióloga lembra que aquela pesquisa havia sido financiada pela NASA, mas os pesquisadores não eram empregados pela NASA. No caso das alegações de Hoover, Lynn distancia a si mesma e a sua agência das conclusões bombásticas do paper e conclui: “por mim, preferiria o tradicional caminho da revisão por pares do que blogs de ciência de fim de semana”.

O site SpaceRef divulgou uma nota oficial da NASA, escrita pelo cientista Paul Hertz:

“NASA is a scientific and technical agency committed to a culture of openness with the media and public. While we value the free exchange of ideas, data, and information as part of scientific and technical inquiry, NASA cannot stand behind or support a scientific claim unless it has been peer-reviewed or thoroughly examined by other qualified experts. This paper was submitted in 2007 to the International Journal of Astrobiology. However, the peer review process was not completed for that submission. NASA also was unaware of the recent submission of the paper to the Journal of Cosmology or of the paper’s subsequent publication. Additional questions should be directed to the author of the paper”.

Em português claro: a NASA não banca uma alegação a não ser que passe pela revisão por pares ou seja examinada por especialistas qualificados (ou seja, a NASA não considera que o Journal of Cosmology tenha um sistema de revisão eficiente ou sério). Além disso, diz Hertz, o mesmo paper foi submetido em 2007 a uma revista conceituada de astrobiologia mas o processo de revisão por pares ainda não foi concluido. A NASA também não sabia da submissão do artigo ao Journal of Cosmology, cuja publicação gerou todo um carnaval midiático.

O Bad Astronomer coletou críticas de cientistas ao paper de Hoover, que pipocaram nas últimas 24 horas. Phil termina com uma pergunta retórica: por que, então, esse artigo foi parar no Journal of Cosmology e não saiu com algum selo da NASA? Phil diz que isso não é um argumento ad hominem. Eu acho que é, mas o post dele está cheio de bons argumentos contra as conclusões do paper.

Está faltando o lado do autor, Richard Hoover, ainda estranhamente em silêncio.

– Aristarco

Updates para o caso do alienígena no meteorito

Aqui vão alguns links sobre a extraordinária notícia de que um cientista encontrou fósseis de bactéria num meteorito, mencionada no post abaixo.

David Dobbs, blogueiro da Wired, traça um perfil do Journal of Cosmology e de seu principal editor, Rudolf Schild. A publicação anunciou o encerramento de suas atividades no fim de fevereiro, e a publicação do paper de Hoover deve ser um de seus últimos atos. Dobbs diz ainda não saber como se posicionar sobre as alegações de Hoover e parece ter um olhar ao mesmo tempo simpático e cauteloso com relação à publicação de Schild.

Collin Maessen, por outro lado, analisa criticamente o Journal of Cosmology do ponto de vista acadêmico. Dizer que Maessen e o resto da blogosfera não se animam é eufemismo. Dêem uma olhada vocês mesmos no site da publicação e tirem suas próprias conclusões. Não lembro onde estava a menção mais engraçada que li nos blogs: é como se o site tivesse entrado num buraco de minhoca e se transportado para os anos 90. Mas lembremos: isso não é argumento, é ad hominem.

Rosie Redfield, uma das primeiras e mais importantes vozes críticas àquela pesquisa da NASA que alegava ter descoberto uma bactéria que substituía fósforo por arsênico em sua composição, postou uma detalhada e demolidora crítica ao paper. Em resumo: “vamos andando, não há nada pra se ver aqui”.

No Nasa Watch, uma série de links – notícias sobre o paper em vários veículos e alguns outros comentários de blogueiros.

Phil do Bad Astronomy afirma cautelosamente que a reputação questionável do Journal of Cosmology e o visual do site não invalidam as alegações de Hoover, mas recomenda um olhar “especialmente cético” ao paper. Phil chama a atenção para o fato de que Hoover fez afirmações semelhantes às alegações do novo paper em 2007. O que me leva à pergunta: se as alegações fossem realmente sólidas, Hoover já não teria revolucionado a astrobiologia há três anos?

A propósito, Phil é citado no anúncio do fim do Journal of Cosmology como um “aspirante a astrônomo” e líder da “multidão de tochas e lanças” culpada pelo fim do site. A publicação haveria “ameaçado o status quo da NASA”.

Nesses links, as caixas de comentários são tão valiosas quanto os posts.

– Aristarco

Mais um alarme falso de microorganismo ET?

Essa é fresquinha.

Diz matéria assinada por Debora Zabarenko para a ABC/Reuters: “sinais de ‘vida alienígena’ encontrados em meteoritos”.

A matéria se refere ao artigo de Richard B. Hoover, que saiu há pouco no Journal of Cosmology. Na blogosfera, não são poucos os que questionam os méritos da publicação e sua revisão por pares é encarada com muita reserva.

O biólogo P. Z. Myers já respondeu com quinze nãos à pergunta “os cientistas descobriram bactérias em meteorito?” e disse que a revista é dominada por defensores da ideia de que a vida se originou no espaço sideral e em algum momento “choveu” sobre a Terra.

O cientista autor do paper trabalha para a NASA. É fácil perceber como isso chancela sua veiculação em alguns dos melhores orgãos da mídia.

Vamos acompanhar essa possível controvérsia nos próximos dias. Pode ser outra oportunidade para aprendermos um pouco mais sobre jornalismo de ciência.

– Aristarco