Starstuff (1)

Vision is itself a good greater than the perpetual motion without any definite direction which modernists regard as the blessed life. Cosmic vision ennobles the pathetic futility of our daily crucifixions.

Morris Cohen, Reason and Nature (1931), p. 14.

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Jornalismo científico dos jornalões brasileiros não sobreviverá a encontro cósmico com um buraco negro de incompetência

Com ambos os anões responsáveis por este recinto cheios de afazeres, deixamos o blog às moscas. Mas não custa nada voltar de vez em quando para comentar alguma notícia interessante de astronocoisas, não é?

Hoje saiu a notícia de que novas medições asseguram que Andromeda e Via Láctea estão mesmo em rota de colisão direta, o que deverá começar a se consumar daqui a uns quatro bilhões de anos. Ambas são galáxias espirais e provavelmente formarão no futuro uma só galáxia, elíptica.

A Folha de São Paulo, para não perder um costume de sua história recente de cobertura de astronomia, publicou a notícia de maneira ridícula. Segundo a Folha, o evento “mudará o Sol de lugar”. Isso não faz o menor sentido, já que o Sol, na verdade, fará parte de uma nova galáxia, resultado da colisão entre as duas espirais. Aliás, no momento em que a colisão se der, o Sol estará nos seus estertores, e adeus planeta Terra como o conhecemos.

Mas isso é o de menos. A reportagem ainda diz que a colisão deverá fazer a Via Láctea “perder sua forma achatada de panqueca”. Hein? Repete? Forma achatada de panqueca? É uma espiral! Se você, jornalista que escreveu essa sandice, quiser estabelecer alguma analogia com o público leigo, pode dizer que a Via Láctea tem um formato de disco (de vinil, CD, DVD, ou até mesmo Blu-Ray, fique à vontade), mas não de panqueca. Vou repetir: a Via Láctea NÃO tem a forma de uma panqueca. (Só faltava o(a) jornalista se justificar dizendo que se referiu à panqueca aberta).

Atenção editoria de ciência da Folha: cuidem com um pouco mais de carinho da seção de astronomia.

A matéria do Estadão foi menos pior, mas só um pouco, talvez por ser mais curta e haver menos espaço para bobagens. Porque ela diz, em subtítulo ainda, que “Terra e Sol sobreviverão”, o que, já sabemos, é uma coisa no mínimo irrelevante de se dizer nesse caso. A cereja do bolo estadônico fica com a velocidade da tal colisão: ela ocorreria numa velocidade de 1,9 km/h. Kilômetros por hora. Isso mesmo, devagar como uma velhinha de 100 (bilhões?) de anos.

E eu não sou astrônomo, sou apenas um historiador curioso com astronomia. Astrônomos profissionais não devem ler o noticiário sob pena de sofrerem um ataque apoplético.

Para uma cobertura de qualidade e por quem entende do assunto, fiquem com o blog do Phil Plait, Bad Astronomy.

– Aristarco

Nebulosa da Cachoeira

Vi a Astronomy Picture of the Day agora há pouco e não pude deixar de compartilhá-la aqui.

Abaixo da imagem segue uma tradução rápida da fascinante descrição do “objeto” cujo nome técnico é HH-222.

Let´s go down the waterfall / Have ourselves a good time / It´s nothing at all

O que criou a Nebulosa da Cachoeira? Ninguém sabe. A estrutura vista na região de NGC 1999, no complexo da Grande Nuvem Molecular de Órion, é uma das mais misteriosas já encontradas no céu. Chamada HH-222, este esguio fluxo gasoso se estende por cerca de dez anos-luz e emite um incomum leque de cores. Uma hipótese é que o filamento de gás resulta do vento de uma estrela jovem impactando uma nuvem molecular próxima. Isso não explicaria, no entanto, por que a Cachoeira e fluxos mais pálidos parecem convergir numa luminosa mas incomum fonte de rádio não-térmica localizada na direção da parte superior esquerda da estrutura curvilínea. Outra hipótese é que a incomum fonte de rádio origina-se de um sistema binário contendo uma anã branca quente, uma estrela de neutron, ou um buraco negro, e que a Cachoeira é apenas um jato desse sistema energético. Tais sistemas, porém, são tipicamente fortes emissores de raios-x, e nenhum raio-x tem sido detectado. Por enquanto, o caso permanece sem solução. Talvez futuras observações bem escolhidas e excelente raciocínio dedutivo possam desvendar a verdadeira origem dessa enigmática nuvem.

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“Ninguém sabe” é quase sempre a resposta mais estimulante. O universo nunca deixará de ser um tanto nebuloso.

– Aristarco

Outside In

Outside In é o nome de um filme projetado para telas gigantes a la IMAX, constituído de animações baseadas somente em imagens (milhões delas) feitas por sondas espaciais.

O que vemos no lindíssimo trailer abaixo deve ter sido feito com imagens captadas pela Cassini, que continua zanzando pelos arredores de Saturno enquanto escrevo.

A obra é dedicada a Carl Sagan e Stanley Kubrick.

Pra virar obra-prima, no entanto, a escolha da trilha sonora precisa ser kubrickiana, menos clichê do que aparenta ser no trailer. Mas não fiquemos só com comentários azedos: o filme deve ser espetacular!

5.6k Saturn Cassini Photographic Animation from stephen v2 on Vimeo.

Retrato do cientista quando jovem

Interessante o texto de Tom Feilden, da BBC, sobre o livro Free Radicals, do science writer Michael Brooks.

Para Brooks, a ciência pós-Segunda Guerra “virou uma marca, como Coca-Cola, Disney ou McDonald’s”. Feilden continua:

A ciência provou o seu valor no calor da batalha, mas enquanto a penicilina e o radar ajudaram-nos a sobreviver, o espantoso poder destruidor da energia atômica venceu.

A importância da ciência foi reconhecida mas também vista com desconfiança, e a identidade da marca desse novo produto foi deliberadamente projetada para enfatizar sua subserviência à sociedade e reiterada por adjetivos como lógico, responsável, confiável, objetivo e racional.

“O cientista virou o monge de nosso tempo – tímido, constrangido, ansioso por ser chamado para ajudar”, [escreve Brooks].

Segundo Feilden, Brooks argumenta que a ciência nunca foi feita de conformismo anestesiado. Pelo contrário, a atividade científica “sempre tem sido uma busca radical, rebelde e anárquica”.

O livro chegará às prateleiras (faz algum sentido, ainda, essa expressão?) no Reino Unido no dia 7 de julho.

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Enquanto é difícil discordar do aparente espírito de valorização do inconformismo (que de fato faz parte da história da ciência moderna), o livro pode ser mais uma tentativa de vender carreiras científicas como algo cool, sexy, jovem. É de se esperar num país em que a estrela da divulgação científica seja alguém como Brian Cox (uma mistura de Carl Sagan com frontman de banda indie).

Parece um cartaz dizendo: “O governo está aumentando custos de sua formação acadêmica e cortando verbas de pesquisa, mas venham ver como é bacana ser cientista!”

A ver.

– Aristarco

Lakatos e as anomalias debaixo do tapete

Conforme prometido em outro post, segue a hilária anedota contada pelo filósofo da ciência Imre Lakatos:

A história é sobre um caso imaginário de mal comportamento planetário. Um físico da era pré-einsteiniana toma a mecânica de Newton e sua lei da gravitação, N, as condições iniciais aceitas, I, e calcula, por meio delas, a órbita de um recém-descoberto pequeno planeta, p. Mas o planeta desvia do caminho calculado. Nosso físico newtoniano considera o desvio inaceitável pela teoria de Newton e isso, uma vez estabelecido, refuta a teoria N? Não. Ele sugere que deve haver um até então desconhecido planeta , que perturba o caminho de p. Calcula a massa, órbita, etc., desse hipotético planeta e então pede para um astrônomo experimental testar sua hipótese. O planeta é tão pequeno que mesmo os maiores telescópios disponíveis não podem observá-lo; o astrônomo experimental se candidata a uma verba de pesquisa para construir um telescópio ainda maior. Em três anos, o novo telescópio está pronto. Se o desconhecido planeta fosse descoberto seria comemorada uma nova vitória da ciência newtoniana. Mas isso não acontece. Nosso cientista abandona a teoria de Newton e sua ideia de um planeta que perturba a órbita do outro? Não. Ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica esconde o planeta de nós. Ele calcula a localização e as propriedades dessa nuvem e pede uma verba de pesquisa para lançar um satélite que teste seus cálculos. Se os instrumentos do satélite (possivelmente novos, baseados numa teoria pouco testada) registrassem a existência da nuvem conjectural, o resultado seria comemorado como uma extraordinária vitória da ciência newtoniana. Mas a nuvem não é encontrada. Nosso cientista abandona a teoria de Newton junto com a ideia de um planeta perturbador e a nuvem que o esconde? Não. Ele sugere que há algum campo magnético naquela região do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Um novo satélite é lançado. Se o campo magnético fosse encontrado, os newtonianos celebrariam uma vitória sensacional. Mas isso não ocorre. Isso é visto como uma refutação da ciência newtoniana? Não. Ou mais uma inventiva hipótese auxiliar é proposta ou… a história toda é enterrada nos empoeirados volumes de periódicos e nunca mais mencionada.

Este trecho do artigo “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes” é citado assim, na íntegra, no excelente livro introdutório à filosofia da ciência What is this thing called science?, de Alan Chalmers, na página 90. A tradução é minha e a fiz agora, portanto pode conter alguns erros ou distorções.

O alvo de Lakatos é o falseacionismo de Karl Popper. Sua historinha ilustra as limitações do critério popperiano de delimitação da ciência mostrando como uma teoria científica pode continuar a ser artificialmente protegida por hipóteses ad hoc mesmo que observações ou experimentos a refutem.

A anedota lembra muito o que ocorreu com a descoberta de Netuno antes de ser observado, por meio da perturbação da órbita de Urano (1 a 0 para Newton) e a anomalia da órbita de Mercúrio, só explicada pela relatividade (2 a 1 para Einstein). Motivo para outro post?

– Aristarco

Death by rogue planet

Por essa já esperávamos: Phil Plait, o Bad Astronomer, que adora imaginar apocalipses cósmicos, usou a notícia comentada abaixo para fazer alguns cálculos sobre a possibilidade de encontrarmos o oblívio nas mãos de um planeta órfão que entre pelo sistema solar causando baderna.

A conclusão dele é que podemos respirar aliviados. Nikkei e Dow Jones sobem amanhã por conta disso.

Pangloss, podemos contar com uma resenha sua de Death from the Skies, do Phil?

– Aristarco

Os verdadeiros errantes

Pela leitura de qualquer livrinho de divulgação de astronomia, uma das primeiras coisas que aprendemos é que a palavra planeta significa, em grego, errante. O motivo do nome é o bizarro movimento aparente destes astros em relação às “estrelas fixas”. Os astrônomos da antiguidade clássica tiveram que brigar com os planetas para montar um sistema cosmológico minimanente coerente. Mesmo assim, seu sistema milenar caiu por terra na revolução copernicana dos séculos XVI e XVII. Por causa do quê? Do estranho movimento dos planetas.

Eu arriscaria dizer que até vinte anos atrás, a categoria de planeta reunia estritamente astros que não produziam luz própria, maiores do que asteróides e cometas (ou melhor, maiores do que planetas-anões como Plutão, se seguirmos as normas atuais da comunidade astronômica), necessariamente orbitando uma estrela ou um pequeno sistema delas.

Não faz muito tempo que a noção de planetas verdadeiramente errantes, vagando pela galáxia sem orbitar estrela qualquer, surgiu com algum destaque no noticiário de ciência. Fico devendo uma pesquisa sobre isso e posso estar enganado, mas, puxando da memória, acho que não passam de cinco ou seis anos atrás a primeira vez em que a hipótese de planetas órfãos foi considerada com seriedade suficiente para que um astrônomo falasse sobre o assunto com um jornalista.

Agora, uma notícia publicada hoje no NYT informa que astrônomos trabalhando com observações de micro lentes gravitacionais encontraram indícios de vários planetas zanzando pelo espaço interestelar. A estimativa é que para cada uma das mais ou menos 200 bilhões de estrelas da Via Láctea, haja dois desses errantes.

Pra mim, o legal da notícia não é apenas isso: para alguém que só aprende de butuca embaixo da mesa dos astrônomos, é uma surpresa gigante gasosa saber que os caras conseguem medir lentes gravitacionais em escala tão pequena.

PS. Veja aqui um vídeo demonstrativo da micro lente gravitacional usada para detectar os planetas no estudo noticiado pelo NYT.

– Aristarco