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“Não esperam ver uma mulher negra nesse papel”

Perto do aniversário de 100 anos da morte da sufragete Emily Davison, o Guardian perguntou a figuras proeminentes de diversas áreas: pelo que lutar, agora, no século 21? A sensacional resposta da cientista espacial Maggie Aderin-Pocock foi a seguinte:

One problem we need to tackle is the way society pigeonholes people according to their sex, creating real barriers to female aspiration. For instance, I’ve got a three-year-old daughter, and when I bought her a toy a little while ago – just a ball game – I was horrified to realise that the packaging described it as a boy’s toy. These stereotypes arise constantly, and although people sometimes say they have a biological basis, history refutes this. Seventy-five years ago it was considered really strange for a woman to become a doctor, and now around 50% of medical doctors are women. People often respond with surprise to the fact that I’m a space scientist – they’re not expecting to see a black woman in the role – and I’d like to see a time when those barriers didn’t exist, when girls believed they could do anything. I’ve long had an idea for an advert that would show two scenes in quick succession. A girl doing her physics homework being discouraged by her family, then shown 20 years later in a dead-end job. Followed by the same girl doing her homework, encouraged by her family, and shown, 20 years later, as the first person to walk on Mars.

 

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Retrato do cientista quando jovem

Interessante o texto de Tom Feilden, da BBC, sobre o livro Free Radicals, do science writer Michael Brooks.

Para Brooks, a ciência pós-Segunda Guerra “virou uma marca, como Coca-Cola, Disney ou McDonald’s”. Feilden continua:

A ciência provou o seu valor no calor da batalha, mas enquanto a penicilina e o radar ajudaram-nos a sobreviver, o espantoso poder destruidor da energia atômica venceu.

A importância da ciência foi reconhecida mas também vista com desconfiança, e a identidade da marca desse novo produto foi deliberadamente projetada para enfatizar sua subserviência à sociedade e reiterada por adjetivos como lógico, responsável, confiável, objetivo e racional.

“O cientista virou o monge de nosso tempo – tímido, constrangido, ansioso por ser chamado para ajudar”, [escreve Brooks].

Segundo Feilden, Brooks argumenta que a ciência nunca foi feita de conformismo anestesiado. Pelo contrário, a atividade científica “sempre tem sido uma busca radical, rebelde e anárquica”.

O livro chegará às prateleiras (faz algum sentido, ainda, essa expressão?) no Reino Unido no dia 7 de julho.

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Enquanto é difícil discordar do aparente espírito de valorização do inconformismo (que de fato faz parte da história da ciência moderna), o livro pode ser mais uma tentativa de vender carreiras científicas como algo cool, sexy, jovem. É de se esperar num país em que a estrela da divulgação científica seja alguém como Brian Cox (uma mistura de Carl Sagan com frontman de banda indie).

Parece um cartaz dizendo: “O governo está aumentando custos de sua formação acadêmica e cortando verbas de pesquisa, mas venham ver como é bacana ser cientista!”

A ver.

– Aristarco

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Death by rogue planet

Por essa já esperávamos: Phil Plait, o Bad Astronomer, que adora imaginar apocalipses cósmicos, usou a notícia comentada abaixo para fazer alguns cálculos sobre a possibilidade de encontrarmos o oblívio nas mãos de um planeta órfão que entre pelo sistema solar causando baderna.

A conclusão dele é que podemos respirar aliviados. Nikkei e Dow Jones sobem amanhã por conta disso.

Pangloss, podemos contar com uma resenha sua de Death from the Skies, do Phil?

– Aristarco

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Os verdadeiros errantes

Pela leitura de qualquer livrinho de divulgação de astronomia, uma das primeiras coisas que aprendemos é que a palavra planeta significa, em grego, errante. O motivo do nome é o bizarro movimento aparente destes astros em relação às “estrelas fixas”. Os astrônomos da antiguidade clássica tiveram que brigar com os planetas para montar um sistema cosmológico minimanente coerente. Mesmo assim, seu sistema milenar caiu por terra na revolução copernicana dos séculos XVI e XVII. Por causa do quê? Do estranho movimento dos planetas.

Eu arriscaria dizer que até vinte anos atrás, a categoria de planeta reunia estritamente astros que não produziam luz própria, maiores do que asteróides e cometas (ou melhor, maiores do que planetas-anões como Plutão, se seguirmos as normas atuais da comunidade astronômica), necessariamente orbitando uma estrela ou um pequeno sistema delas.

Não faz muito tempo que a noção de planetas verdadeiramente errantes, vagando pela galáxia sem orbitar estrela qualquer, surgiu com algum destaque no noticiário de ciência. Fico devendo uma pesquisa sobre isso e posso estar enganado, mas, puxando da memória, acho que não passam de cinco ou seis anos atrás a primeira vez em que a hipótese de planetas órfãos foi considerada com seriedade suficiente para que um astrônomo falasse sobre o assunto com um jornalista.

Agora, uma notícia publicada hoje no NYT informa que astrônomos trabalhando com observações de micro lentes gravitacionais encontraram indícios de vários planetas zanzando pelo espaço interestelar. A estimativa é que para cada uma das mais ou menos 200 bilhões de estrelas da Via Láctea, haja dois desses errantes.

Pra mim, o legal da notícia não é apenas isso: para alguém que só aprende de butuca embaixo da mesa dos astrônomos, é uma surpresa gigante gasosa saber que os caras conseguem medir lentes gravitacionais em escala tão pequena.

PS. Veja aqui um vídeo demonstrativo da micro lente gravitacional usada para detectar os planetas no estudo noticiado pelo NYT.

– Aristarco

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Hoover “premiado” por James Randi

Dias atrás, foi agraciado com o Prêmio Pigasus o Dr. Richard Hoover, engenheiro da NASA e autoproclamado astrobiólogo que alegou, no início do mês passado, ter encontrado evidências de fósseis de bactérias alienígenas. O artigo que sustenta a alegação, publicado numa revista científica de baixa credibilidade entre os cosmólogos, chegou aos principais órgãos noticiosos mas recebeu uma saraivada de críticas.

O Pigasus é uma premiação irônica. Junto com o Ig Nobel, é o Framboesa de Ouro da ciência. Promovido por James Randi, ex-ilusionista e conhecido militante cético que costuma desmascarar alegações fantásticas e fenômenos paranormais ou sobrenaturais, esse prêmio é, certamente, a cereja do bolo de quem destroçou o trabalho de Hoover na internet.

Clique aqui para conferir todos os laureados. Quando uma figura como Randi faz esse tipo de chacota e te coloca no mesmo nível de Alan “Antivax” Wakefield, você oficialmente virou um saco de pancadas.

Chama a atenção o fato de que esta é a única atualização sobre a controvérsia que incendiou a blogosfera de ciência há um mês atrás (veja, abaixo, nossa série de posts) e rapidamente perdeu força. Não encontrei qualquer entrevista com Hoover, sequer alguma declaração sua em defesa de seu artigo. Ninguém procurou o cara ou ele se escondeu? É uma pena que o debate não tenha ocorrido como seria de se esperar. O fato é que seu paper ficou à mercê da enxurrada de críticas e parece que vai ser enterrado na vala comum dos resultados anômalos e da má ciência, sem sabermos exatamente se o trabalho é uma coisa ou outra.

Isso me lembra uma impagável história contada pelo filósofo da ciência Imre Lakatos, que ilustra como a comunidade científica pode varrer para debaixo do tapete resultados que conflitam com o consenso corrente. Mas ainda tenho que traduzí-la. Fica para outro post.

– Aristarco

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A NASA fala, os pares falam

Rosie Redfield publicou uma declaração de Lynn Rothschild, astrobióloga da NASA. (Redfield pega pesado e diz que Lynn é uma astrobiológa de verdade. Mas não deixa de ter razão, pois Hoover, o autor do paper, é engenheiro, conforme a própria Lynn faz questão de ressaltar). Em resumo, Lynn está preocupada com a reputação dos cientistas da NASA, já arranhada pelo caso da bactéria de arsênico. A astrobióloga lembra que aquela pesquisa havia sido financiada pela NASA, mas os pesquisadores não eram empregados pela NASA. No caso das alegações de Hoover, Lynn distancia a si mesma e a sua agência das conclusões bombásticas do paper e conclui: “por mim, preferiria o tradicional caminho da revisão por pares do que blogs de ciência de fim de semana”.

O site SpaceRef divulgou uma nota oficial da NASA, escrita pelo cientista Paul Hertz:

“NASA is a scientific and technical agency committed to a culture of openness with the media and public. While we value the free exchange of ideas, data, and information as part of scientific and technical inquiry, NASA cannot stand behind or support a scientific claim unless it has been peer-reviewed or thoroughly examined by other qualified experts. This paper was submitted in 2007 to the International Journal of Astrobiology. However, the peer review process was not completed for that submission. NASA also was unaware of the recent submission of the paper to the Journal of Cosmology or of the paper’s subsequent publication. Additional questions should be directed to the author of the paper”.

Em português claro: a NASA não banca uma alegação a não ser que passe pela revisão por pares ou seja examinada por especialistas qualificados (ou seja, a NASA não considera que o Journal of Cosmology tenha um sistema de revisão eficiente ou sério). Além disso, diz Hertz, o mesmo paper foi submetido em 2007 a uma revista conceituada de astrobiologia mas o processo de revisão por pares ainda não foi concluido. A NASA também não sabia da submissão do artigo ao Journal of Cosmology, cuja publicação gerou todo um carnaval midiático.

O Bad Astronomer coletou críticas de cientistas ao paper de Hoover, que pipocaram nas últimas 24 horas. Phil termina com uma pergunta retórica: por que, então, esse artigo foi parar no Journal of Cosmology e não saiu com algum selo da NASA? Phil diz que isso não é um argumento ad hominem. Eu acho que é, mas o post dele está cheio de bons argumentos contra as conclusões do paper.

Está faltando o lado do autor, Richard Hoover, ainda estranhamente em silêncio.

– Aristarco

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Updates para o caso do alienígena no meteorito

Aqui vão alguns links sobre a extraordinária notícia de que um cientista encontrou fósseis de bactéria num meteorito, mencionada no post abaixo.

David Dobbs, blogueiro da Wired, traça um perfil do Journal of Cosmology e de seu principal editor, Rudolf Schild. A publicação anunciou o encerramento de suas atividades no fim de fevereiro, e a publicação do paper de Hoover deve ser um de seus últimos atos. Dobbs diz ainda não saber como se posicionar sobre as alegações de Hoover e parece ter um olhar ao mesmo tempo simpático e cauteloso com relação à publicação de Schild.

Collin Maessen, por outro lado, analisa criticamente o Journal of Cosmology do ponto de vista acadêmico. Dizer que Maessen e o resto da blogosfera não se animam é eufemismo. Dêem uma olhada vocês mesmos no site da publicação e tirem suas próprias conclusões. Não lembro onde estava a menção mais engraçada que li nos blogs: é como se o site tivesse entrado num buraco de minhoca e se transportado para os anos 90. Mas lembremos: isso não é argumento, é ad hominem.

Rosie Redfield, uma das primeiras e mais importantes vozes críticas àquela pesquisa da NASA que alegava ter descoberto uma bactéria que substituía fósforo por arsênico em sua composição, postou uma detalhada e demolidora crítica ao paper. Em resumo: “vamos andando, não há nada pra se ver aqui”.

No Nasa Watch, uma série de links – notícias sobre o paper em vários veículos e alguns outros comentários de blogueiros.

Phil do Bad Astronomy afirma cautelosamente que a reputação questionável do Journal of Cosmology e o visual do site não invalidam as alegações de Hoover, mas recomenda um olhar “especialmente cético” ao paper. Phil chama a atenção para o fato de que Hoover fez afirmações semelhantes às alegações do novo paper em 2007. O que me leva à pergunta: se as alegações fossem realmente sólidas, Hoover já não teria revolucionado a astrobiologia há três anos?

A propósito, Phil é citado no anúncio do fim do Journal of Cosmology como um “aspirante a astrônomo” e líder da “multidão de tochas e lanças” culpada pelo fim do site. A publicação haveria “ameaçado o status quo da NASA”.

Nesses links, as caixas de comentários são tão valiosas quanto os posts.

– Aristarco

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Mais um alarme falso de microorganismo ET?

Essa é fresquinha.

Diz matéria assinada por Debora Zabarenko para a ABC/Reuters: “sinais de ‘vida alienígena’ encontrados em meteoritos”.

A matéria se refere ao artigo de Richard B. Hoover, que saiu há pouco no Journal of Cosmology. Na blogosfera, não são poucos os que questionam os méritos da publicação e sua revisão por pares é encarada com muita reserva.

O biólogo P. Z. Myers já respondeu com quinze nãos à pergunta “os cientistas descobriram bactérias em meteorito?” e disse que a revista é dominada por defensores da ideia de que a vida se originou no espaço sideral e em algum momento “choveu” sobre a Terra.

O cientista autor do paper trabalha para a NASA. É fácil perceber como isso chancela sua veiculação em alguns dos melhores orgãos da mídia.

Vamos acompanhar essa possível controvérsia nos próximos dias. Pode ser outra oportunidade para aprendermos um pouco mais sobre jornalismo de ciência.

– Aristarco

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Noticiando uma controvérsia: um adendo

Além de um artigo jornalístico poder explorar conjecturas e hipóteses de forma um pouco mais livre do que um paper científico, defendo que haja uma justificativa ainda mais importante e mais convincente para o exagero do noticiário de ciência com relação ao êxito limitado da Mond.

A Mond é uma ilustre desconhecida. Fora da comunidade científica (eu diria cosmológica), pouca gente sequer ouviu falar dela. Sua importância é relativa à matéria escura. Quanto maior seu sucesso, menor a necessidade de lançar mão de uma entidade exótica. É preciso dizer (e aqui é Carroll quem informa) que mesmo com a eventual comprovação da gravidade newtoniana modificada, a cosmologia ainda não dá conta de explicar o que observa sem a matéria escura; por outro lado a existência de matéria escura, se comprovada, não exclui a necessidade de pensar numa gravidade modificada. Mas não dá pra negar que o sucesso de uma pode ter consequências negativas à amplitude de outra.

Portanto, como noticiar um estudo que relata um pequeno mas significativo sucesso da Mond? Há uma outra pergunta embutida aí: qual é o interesse desse resultado ao estado atual de conhecimento da cosmologia? A resposta deve, necessariamente, incluir um desafio à matéria escura, essa sim, habituê do noticiário de ciência. Não é apenas para apimentar a notícia que os jornalistas estamparam a matéria escura na manchete. Foi uma forma de mostrar ao público qual a importância daquele estudo relativamente às contendas disputadas em sua arena. Isso deve ser uma das prioridades do jornalismo de ciência. Se é um exagero dizer que a Mond coloca um desafio sério à existência da matéria escura, seria omissão não informar que há uma relação entre o sucesso de uma teoria marginal e os destinos da explicação dominante.

– Aristarco

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Noticiando uma controvérsia

No imbróglio sobre se a Mecânica Newtoniana Modificada (Mond) coloca ou não a existência da matéria escura em xeque, faltou falar alguma coisa sobre o papel desempenhado pelo jornalismo de ciência neste caso específico.

A postura do cosmólogo Sean Carroll foi, além de argumentar contra a validade da Mond, a de dizer que parte da responsabilidade pelo fuzuê armado contra a matéria escura partiu da forma como o jornalismo de ciência é geralmente praticado (especialmente em veículos não especializados). “Ninguém leria um artigo entitulado Galáxias ricas em gás confirmam previsão na teoria da gravidade modificada“, diz Carroll, “ou, pelo menos, poucas pessoas estariam interessadas nisso quando comparado a evidências que se chocam frontalmente contra a matéria escura”. A matéria da BBC saiu com a manchete: “Matéria escura desafiada por resultados de galáxias cheias de gás” e outros veículos acompanharam o tom.

Vamos com calma. É muito difícil imaginar alguma ideologia fora dos campi, gabinetes, observatórios e agências de financiamento para pesquisas, que se interesse por minar ou promover a matéria escura. Quem zela por uma ou outra teoria são os cientistas. O público não está nem aí para o destino de uma ideia esotérica como a matéria escura (no bom sentido de esotérico, diga-se). No máximo o público quer saber qual o destino de toda a ciência e não de uma teoria determinada. Se levarmos em consideração o que os jornalistas pensam ser a expectativa do público, então o que o público quer são novidades. Quanto mais polpuda a novidade, mais garrafais e incisivas as manchetes, mais cliques, mais leitores, mais grana. Carroll está ciente disso e acusa os jornalistas de terem criado um hype onde não existe tanta novidade assim: “vamos apimentar um pouco a história. Vamos destacar a conclusão mais dramática que podemos imaginar e enterrar quaisquer ressalvas até o final”, dizem os jornalistas na cabeça do cosmólogo.

Sabemos que ele não está essencialmente errado (a mídia é uma maquininha bem suja, mesmo) mas vamos acompanhar seu argumento. Primeiro, um estudo de física é publicado numa revista conceituada. Press-releases são divulgados e caem nas redações. O que o estudo diz é que as previsões de uma teoria em desenvolvimento correspondem às observações de um tipo bastante peculiar de galáxias. Os jornalistas de ciência, informados de que a teoria em questão (a Mond) pode significar uma explicação alternativa à hipótese dominante (a matéria escura), procuram explorar os resultados positivos para a teoria alternativa e conjecturam possíveis consequências de um hipotético sucesso retumbante da Mond. Isso é apimentar a história, segundo Carroll. A matéria escura está muito bem, obrigado. A Mond não é nada disso que estão pensando. Etcetera.

Tudo isso é bastante razoável e é difícil discordar do cosmólogo. Mas o que também deveria ser lembrado é que o discurso do jornalismo de ciência é fundamentalmente diferente do da ciência. Cumpre papel social diferente, constitui-se em meios diferentes, tem objetivos diferentes. Deve ser permitido ao jornalista ou ao science writer dar pequenos saltos em seus artigos ou reportagens que aos cientistas devem estar terminantemente proibidos. Alguém que escreve sobre ciência deve ter o olhar voltado um pouquinho mais para o horizonte do que o olhar de toupeira do cientista. Por isso, é inaceitável que um paper alegue estar propondo um desafio sério a uma hipótese rival se não comprova que a sua hipótese tenha sido confirmada ou que o lado adversário tenha sido refutado. O que se faz em ciência é exatamente isso o que o paper noticiado fez: “estudamos este tipo de galáxias e os resultados foram consistentes com nossa teoria”. Mas enquanto o estudo nem de longe aponta para um desafio sério à existência da matéria escura, é interessante que o noticiário de ciência esteja atento ao fato de que há explicações alternativas. É muito melhor para a própria ciência que o jornalismo faça isso, em vez de ficar preso a apenas uma única explicação dominante, que sequer dá conta completamente do recado e cuja entidade protagonista ainda não foi incontrovertidamente observada, detectada, comprovada.

É fato que a Mond ainda não tem os mesmos méritos explicativos da matéria escura. Como sou apenas um anão debaixo da mesa ouvindo cosmólogos e físicos conversando, não tenho outro critério para julgar a questão que não o sociológico: a imensa maioria dos cientistas da área se satisfazem com a matéria escura para explicar a física bizarra das galáxias. Não, a Mond ainda não é um rival à altura da matéria escura e ainda não estamos numa crise de paradigmas (há que se dizer: nem matéria escura, nem a Mond constituem paradigmas, mas apenas teorias ou hipóteses rivais). Mas é necessário que a existência de tentativas alternativas sejam colocadas ao alcance do público. Muitas vezes a matéria escura é tratada como fato consumado, como entidade seguramente comprovada. Se o jornalismo de ciência se render a isso e pisar sobre ovos quando tratar de explicações alternativas, ele estará transmitindo uma imagem caricatural da ciência e do que significam dentro dela uma hipótese, uma teoria e uma evidência.

Se “cientistas e jornalistas têm a responsabilidade conjunta de fazer um trabalho melhor ao tornar as coisas mais claras, e não apenas torná-las mais empolgantes”, como diz com toda a razão Carroll, ambos também tem a responsabilidade de mostrar que a ciência é sempre uma busca em aberto, indefinida e interminável, e que às vezes há alternativas para conclusões recorrente e erroneamente tratadas como fato.

– Aristarco

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