O trânsito de Vênus

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Jornalismo científico dos jornalões brasileiros não sobreviverá a encontro cósmico com um buraco negro de incompetência

Com ambos os anões responsáveis por este recinto cheios de afazeres, deixamos o blog às moscas. Mas não custa nada voltar de vez em quando para comentar alguma notícia interessante de astronocoisas, não é?

Hoje saiu a notícia de que novas medições asseguram que Andromeda e Via Láctea estão mesmo em rota de colisão direta, o que deverá começar a se consumar daqui a uns quatro bilhões de anos. Ambas são galáxias espirais e provavelmente formarão no futuro uma só galáxia, elíptica.

A Folha de São Paulo, para não perder um costume de sua história recente de cobertura de astronomia, publicou a notícia de maneira ridícula. Segundo a Folha, o evento “mudará o Sol de lugar”. Isso não faz o menor sentido, já que o Sol, na verdade, fará parte de uma nova galáxia, resultado da colisão entre as duas espirais. Aliás, no momento em que a colisão se der, o Sol estará nos seus estertores, e adeus planeta Terra como o conhecemos.

Mas isso é o de menos. A reportagem ainda diz que a colisão deverá fazer a Via Láctea “perder sua forma achatada de panqueca”. Hein? Repete? Forma achatada de panqueca? É uma espiral! Se você, jornalista que escreveu essa sandice, quiser estabelecer alguma analogia com o público leigo, pode dizer que a Via Láctea tem um formato de disco (de vinil, CD, DVD, ou até mesmo Blu-Ray, fique à vontade), mas não de panqueca. Vou repetir: a Via Láctea NÃO tem a forma de uma panqueca. (Só faltava o(a) jornalista se justificar dizendo que se referiu à panqueca aberta).

Atenção editoria de ciência da Folha: cuidem com um pouco mais de carinho da seção de astronomia.

A matéria do Estadão foi menos pior, mas só um pouco, talvez por ser mais curta e haver menos espaço para bobagens. Porque ela diz, em subtítulo ainda, que “Terra e Sol sobreviverão”, o que, já sabemos, é uma coisa no mínimo irrelevante de se dizer nesse caso. A cereja do bolo estadônico fica com a velocidade da tal colisão: ela ocorreria numa velocidade de 1,9 km/h. Kilômetros por hora. Isso mesmo, devagar como uma velhinha de 100 (bilhões?) de anos.

E eu não sou astrônomo, sou apenas um historiador curioso com astronomia. Astrônomos profissionais não devem ler o noticiário sob pena de sofrerem um ataque apoplético.

Para uma cobertura de qualidade e por quem entende do assunto, fiquem com o blog do Phil Plait, Bad Astronomy.

– Aristarco