Lakatos e as anomalias debaixo do tapete

Conforme prometido em outro post, segue a hilária anedota contada pelo filósofo da ciência Imre Lakatos:

A história é sobre um caso imaginário de mal comportamento planetário. Um físico da era pré-einsteiniana toma a mecânica de Newton e sua lei da gravitação, N, as condições iniciais aceitas, I, e calcula, por meio delas, a órbita de um recém-descoberto pequeno planeta, p. Mas o planeta desvia do caminho calculado. Nosso físico newtoniano considera o desvio inaceitável pela teoria de Newton e isso, uma vez estabelecido, refuta a teoria N? Não. Ele sugere que deve haver um até então desconhecido planeta , que perturba o caminho de p. Calcula a massa, órbita, etc., desse hipotético planeta e então pede para um astrônomo experimental testar sua hipótese. O planeta é tão pequeno que mesmo os maiores telescópios disponíveis não podem observá-lo; o astrônomo experimental se candidata a uma verba de pesquisa para construir um telescópio ainda maior. Em três anos, o novo telescópio está pronto. Se o desconhecido planeta fosse descoberto seria comemorada uma nova vitória da ciência newtoniana. Mas isso não acontece. Nosso cientista abandona a teoria de Newton e sua ideia de um planeta que perturba a órbita do outro? Não. Ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica esconde o planeta de nós. Ele calcula a localização e as propriedades dessa nuvem e pede uma verba de pesquisa para lançar um satélite que teste seus cálculos. Se os instrumentos do satélite (possivelmente novos, baseados numa teoria pouco testada) registrassem a existência da nuvem conjectural, o resultado seria comemorado como uma extraordinária vitória da ciência newtoniana. Mas a nuvem não é encontrada. Nosso cientista abandona a teoria de Newton junto com a ideia de um planeta perturbador e a nuvem que o esconde? Não. Ele sugere que há algum campo magnético naquela região do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Um novo satélite é lançado. Se o campo magnético fosse encontrado, os newtonianos celebrariam uma vitória sensacional. Mas isso não ocorre. Isso é visto como uma refutação da ciência newtoniana? Não. Ou mais uma inventiva hipótese auxiliar é proposta ou… a história toda é enterrada nos empoeirados volumes de periódicos e nunca mais mencionada.

Este trecho do artigo “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes” é citado assim, na íntegra, no excelente livro introdutório à filosofia da ciência What is this thing called science?, de Alan Chalmers, na página 90. A tradução é minha e a fiz agora, portanto pode conter alguns erros ou distorções.

O alvo de Lakatos é o falseacionismo de Karl Popper. Sua historinha ilustra as limitações do critério popperiano de delimitação da ciência mostrando como uma teoria científica pode continuar a ser artificialmente protegida por hipóteses ad hoc mesmo que observações ou experimentos a refutem.

A anedota lembra muito o que ocorreu com a descoberta de Netuno antes de ser observado, por meio da perturbação da órbita de Urano (1 a 0 para Newton) e a anomalia da órbita de Mercúrio, só explicada pela relatividade (2 a 1 para Einstein). Motivo para outro post?

– Aristarco

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