Arquivo do mês: maio 2011

Lakatos e as anomalias debaixo do tapete

Conforme prometido em outro post, segue a hilária anedota contada pelo filósofo da ciência Imre Lakatos:

A história é sobre um caso imaginário de mal comportamento planetário. Um físico da era pré-einsteiniana toma a mecânica de Newton e sua lei da gravitação, N, as condições iniciais aceitas, I, e calcula, por meio delas, a órbita de um recém-descoberto pequeno planeta, p. Mas o planeta desvia do caminho calculado. Nosso físico newtoniano considera o desvio inaceitável pela teoria de Newton e isso, uma vez estabelecido, refuta a teoria N? Não. Ele sugere que deve haver um até então desconhecido planeta , que perturba o caminho de p. Calcula a massa, órbita, etc., desse hipotético planeta e então pede para um astrônomo experimental testar sua hipótese. O planeta é tão pequeno que mesmo os maiores telescópios disponíveis não podem observá-lo; o astrônomo experimental se candidata a uma verba de pesquisa para construir um telescópio ainda maior. Em três anos, o novo telescópio está pronto. Se o desconhecido planeta fosse descoberto seria comemorada uma nova vitória da ciência newtoniana. Mas isso não acontece. Nosso cientista abandona a teoria de Newton e sua ideia de um planeta que perturba a órbita do outro? Não. Ele sugere que uma nuvem de poeira cósmica esconde o planeta de nós. Ele calcula a localização e as propriedades dessa nuvem e pede uma verba de pesquisa para lançar um satélite que teste seus cálculos. Se os instrumentos do satélite (possivelmente novos, baseados numa teoria pouco testada) registrassem a existência da nuvem conjectural, o resultado seria comemorado como uma extraordinária vitória da ciência newtoniana. Mas a nuvem não é encontrada. Nosso cientista abandona a teoria de Newton junto com a ideia de um planeta perturbador e a nuvem que o esconde? Não. Ele sugere que há algum campo magnético naquela região do universo que perturbou os instrumentos do satélite. Um novo satélite é lançado. Se o campo magnético fosse encontrado, os newtonianos celebrariam uma vitória sensacional. Mas isso não ocorre. Isso é visto como uma refutação da ciência newtoniana? Não. Ou mais uma inventiva hipótese auxiliar é proposta ou… a história toda é enterrada nos empoeirados volumes de periódicos e nunca mais mencionada.

Este trecho do artigo “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes” é citado assim, na íntegra, no excelente livro introdutório à filosofia da ciência What is this thing called science?, de Alan Chalmers, na página 90. A tradução é minha e a fiz agora, portanto pode conter alguns erros ou distorções.

O alvo de Lakatos é o falseacionismo de Karl Popper. Sua historinha ilustra as limitações do critério popperiano de delimitação da ciência mostrando como uma teoria científica pode continuar a ser artificialmente protegida por hipóteses ad hoc mesmo que observações ou experimentos a refutem.

A anedota lembra muito o que ocorreu com a descoberta de Netuno antes de ser observado, por meio da perturbação da órbita de Urano (1 a 0 para Newton) e a anomalia da órbita de Mercúrio, só explicada pela relatividade (2 a 1 para Einstein). Motivo para outro post?

– Aristarco

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Death by rogue planet

Por essa já esperávamos: Phil Plait, o Bad Astronomer, que adora imaginar apocalipses cósmicos, usou a notícia comentada abaixo para fazer alguns cálculos sobre a possibilidade de encontrarmos o oblívio nas mãos de um planeta órfão que entre pelo sistema solar causando baderna.

A conclusão dele é que podemos respirar aliviados. Nikkei e Dow Jones sobem amanhã por conta disso.

Pangloss, podemos contar com uma resenha sua de Death from the Skies, do Phil?

– Aristarco

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Os verdadeiros errantes

Pela leitura de qualquer livrinho de divulgação de astronomia, uma das primeiras coisas que aprendemos é que a palavra planeta significa, em grego, errante. O motivo do nome é o bizarro movimento aparente destes astros em relação às “estrelas fixas”. Os astrônomos da antiguidade clássica tiveram que brigar com os planetas para montar um sistema cosmológico minimanente coerente. Mesmo assim, seu sistema milenar caiu por terra na revolução copernicana dos séculos XVI e XVII. Por causa do quê? Do estranho movimento dos planetas.

Eu arriscaria dizer que até vinte anos atrás, a categoria de planeta reunia estritamente astros que não produziam luz própria, maiores do que asteróides e cometas (ou melhor, maiores do que planetas-anões como Plutão, se seguirmos as normas atuais da comunidade astronômica), necessariamente orbitando uma estrela ou um pequeno sistema delas.

Não faz muito tempo que a noção de planetas verdadeiramente errantes, vagando pela galáxia sem orbitar estrela qualquer, surgiu com algum destaque no noticiário de ciência. Fico devendo uma pesquisa sobre isso e posso estar enganado, mas, puxando da memória, acho que não passam de cinco ou seis anos atrás a primeira vez em que a hipótese de planetas órfãos foi considerada com seriedade suficiente para que um astrônomo falasse sobre o assunto com um jornalista.

Agora, uma notícia publicada hoje no NYT informa que astrônomos trabalhando com observações de micro lentes gravitacionais encontraram indícios de vários planetas zanzando pelo espaço interestelar. A estimativa é que para cada uma das mais ou menos 200 bilhões de estrelas da Via Láctea, haja dois desses errantes.

Pra mim, o legal da notícia não é apenas isso: para alguém que só aprende de butuca embaixo da mesa dos astrônomos, é uma surpresa gigante gasosa saber que os caras conseguem medir lentes gravitacionais em escala tão pequena.

PS. Veja aqui um vídeo demonstrativo da micro lente gravitacional usada para detectar os planetas no estudo noticiado pelo NYT.

– Aristarco

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