Uma desafiante para a matéria escura

"E aqui, como vocês podem observar com clareza, uma amostra de matéria escura"

Uma vez eu perguntei no meu ex-blog: existe mais matéria escura entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, ou nossa vã filosofia ficou gagá de vez?

Uma matéria de Jason Palmer publicada ontem no site da BBC noticia a publicação de um estudo que aplica a chamada Dinâmica Newtoniana Modificada para explicar o movimento de rotação da matéria nas galáxias.

Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa tal dinâmica modificada, embora tenha aparecido pela primeira vez em publicação acadêmica ainda em 1983. A Mond (sigla de Modified Newtonian Dynamics) surgiu das mesmas anomalias que motivaram a maior parte da comunidade de físicos a aventar e, depois, a dar como certa a hipótese ad hoc de que há algum tipo de matéria que interage apenas gravitacionalmente com a matéria bariônica (a de que são feitas desde as estrelas até nós, vermezinhos cósmicos).

De maneira simplificada (mesmo porque eu nunca conseguiria entender e explicar melhor do que isso), o modelo atual da gravitação prevê que as partes exteriores de uma galáxia espiral se movimentariam mais lentamente do que o seu interior. Mas o que se observa é a parte exterior girando ao redor do núcleo galático na mesma velocidade das regiões interiores. As galáxias giram mais uniformemente do que a teoria prevê. (Para uma explicação profissional do problema, clique aqui). O que dá numa bifurcação tenebrosa para os físicos: ou a teoria gravitacional está quebrada ou há alguma outra coisa que não conhecemos dando coerência para o movimento das galáxias. A primeira alternativa, suponho, encontra resistência pois, mesmo que a teoria precise de uma correção apenas ao nível das galáxias, ela perde sua universalidade. A universalidade sempre foi um dos grandes sustentáculos sociais e culturais da teoria newtoniana, que durou dois séculos. Por isso, a segunda alternativa tem sido considerada pelos físicos com muito mais, digamos, carinho. (Justiça seja feita: é verdade que há alguns indícios da existência da matéria escura, embora longe de qualquer conclusividade. O principal deles é a aparente formação de lentes gravitacionais onde não há qualquer matéria observável).

Estaremos presenciando um período de crise da cosmologia? É possível, principalmente se levarmos em consideração a clássica estruturação das revoluções científicas de Thomas Kuhn. Há uma grande anomalia empírica (observacional/experimental) que o modelo atual não explica. Há hipóteses ad hoc tentando salvar o modelo, mas há outra tentativa válida de adaptação teórica. Logo depois, prevê a estrutura kuhniana, vem a crise.

A matéria escura ainda aglutina a maior parte dos físicos a ao seu redor, mas, como diz Palmer, a Mond “conta com vários cosmólogos proeminentes entre seus seguidores”. A contenda entre modelos diferentes pode estar apenas começando.

Acompanhemos os próximos passos com atenção.

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Leitura adicional: O enigma da matéria escura, na Scientific American.

– Aristarco

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