Noticiando uma controvérsia

No imbróglio sobre se a Mecânica Newtoniana Modificada (Mond) coloca ou não a existência da matéria escura em xeque, faltou falar alguma coisa sobre o papel desempenhado pelo jornalismo de ciência neste caso específico.

A postura do cosmólogo Sean Carroll foi, além de argumentar contra a validade da Mond, a de dizer que parte da responsabilidade pelo fuzuê armado contra a matéria escura partiu da forma como o jornalismo de ciência é geralmente praticado (especialmente em veículos não especializados). “Ninguém leria um artigo entitulado Galáxias ricas em gás confirmam previsão na teoria da gravidade modificada“, diz Carroll, “ou, pelo menos, poucas pessoas estariam interessadas nisso quando comparado a evidências que se chocam frontalmente contra a matéria escura”. A matéria da BBC saiu com a manchete: “Matéria escura desafiada por resultados de galáxias cheias de gás” e outros veículos acompanharam o tom.

Vamos com calma. É muito difícil imaginar alguma ideologia fora dos campi, gabinetes, observatórios e agências de financiamento para pesquisas, que se interesse por minar ou promover a matéria escura. Quem zela por uma ou outra teoria são os cientistas. O público não está nem aí para o destino de uma ideia esotérica como a matéria escura (no bom sentido de esotérico, diga-se). No máximo o público quer saber qual o destino de toda a ciência e não de uma teoria determinada. Se levarmos em consideração o que os jornalistas pensam ser a expectativa do público, então o que o público quer são novidades. Quanto mais polpuda a novidade, mais garrafais e incisivas as manchetes, mais cliques, mais leitores, mais grana. Carroll está ciente disso e acusa os jornalistas de terem criado um hype onde não existe tanta novidade assim: “vamos apimentar um pouco a história. Vamos destacar a conclusão mais dramática que podemos imaginar e enterrar quaisquer ressalvas até o final”, dizem os jornalistas na cabeça do cosmólogo.

Sabemos que ele não está essencialmente errado (a mídia é uma maquininha bem suja, mesmo) mas vamos acompanhar seu argumento. Primeiro, um estudo de física é publicado numa revista conceituada. Press-releases são divulgados e caem nas redações. O que o estudo diz é que as previsões de uma teoria em desenvolvimento correspondem às observações de um tipo bastante peculiar de galáxias. Os jornalistas de ciência, informados de que a teoria em questão (a Mond) pode significar uma explicação alternativa à hipótese dominante (a matéria escura), procuram explorar os resultados positivos para a teoria alternativa e conjecturam possíveis consequências de um hipotético sucesso retumbante da Mond. Isso é apimentar a história, segundo Carroll. A matéria escura está muito bem, obrigado. A Mond não é nada disso que estão pensando. Etcetera.

Tudo isso é bastante razoável e é difícil discordar do cosmólogo. Mas o que também deveria ser lembrado é que o discurso do jornalismo de ciência é fundamentalmente diferente do da ciência. Cumpre papel social diferente, constitui-se em meios diferentes, tem objetivos diferentes. Deve ser permitido ao jornalista ou ao science writer dar pequenos saltos em seus artigos ou reportagens que aos cientistas devem estar terminantemente proibidos. Alguém que escreve sobre ciência deve ter o olhar voltado um pouquinho mais para o horizonte do que o olhar de toupeira do cientista. Por isso, é inaceitável que um paper alegue estar propondo um desafio sério a uma hipótese rival se não comprova que a sua hipótese tenha sido confirmada ou que o lado adversário tenha sido refutado. O que se faz em ciência é exatamente isso o que o paper noticiado fez: “estudamos este tipo de galáxias e os resultados foram consistentes com nossa teoria”. Mas enquanto o estudo nem de longe aponta para um desafio sério à existência da matéria escura, é interessante que o noticiário de ciência esteja atento ao fato de que há explicações alternativas. É muito melhor para a própria ciência que o jornalismo faça isso, em vez de ficar preso a apenas uma única explicação dominante, que sequer dá conta completamente do recado e cuja entidade protagonista ainda não foi incontrovertidamente observada, detectada, comprovada.

É fato que a Mond ainda não tem os mesmos méritos explicativos da matéria escura. Como sou apenas um anão debaixo da mesa ouvindo cosmólogos e físicos conversando, não tenho outro critério para julgar a questão que não o sociológico: a imensa maioria dos cientistas da área se satisfazem com a matéria escura para explicar a física bizarra das galáxias. Não, a Mond ainda não é um rival à altura da matéria escura e ainda não estamos numa crise de paradigmas (há que se dizer: nem matéria escura, nem a Mond constituem paradigmas, mas apenas teorias ou hipóteses rivais). Mas é necessário que a existência de tentativas alternativas sejam colocadas ao alcance do público. Muitas vezes a matéria escura é tratada como fato consumado, como entidade seguramente comprovada. Se o jornalismo de ciência se render a isso e pisar sobre ovos quando tratar de explicações alternativas, ele estará transmitindo uma imagem caricatural da ciência e do que significam dentro dela uma hipótese, uma teoria e uma evidência.

Se “cientistas e jornalistas têm a responsabilidade conjunta de fazer um trabalho melhor ao tornar as coisas mais claras, e não apenas torná-las mais empolgantes”, como diz com toda a razão Carroll, ambos também tem a responsabilidade de mostrar que a ciência é sempre uma busca em aberto, indefinida e interminável, e que às vezes há alternativas para conclusões recorrente e erroneamente tratadas como fato.

- Aristarco

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