Dark matter matters, reloaded

O Aglomerado-Bala

Dêem um desconto para o título com o trocadilho mais batido em 10 das 11 dimensões do espaço-tempo, pois estou com certa pressa.

O astrônomo e blogueiro Phil Plait, um dos nossos favoritos e mais conhecido como “o cara do Bad Astronomy“, linkou hoje um post de Sean Carroll (cosmólogo e também blogueiro) que corre para apagar o fogo (mencionado no nosso post anterior) e sustenta o seguinte:

a) a Mond é feia; b) a Mond não bate com os aglomerados (de galáxias, suponho); c) mesmo com a Mond, ainda é necessário considerar a matéria escura; d) a Mond sequer serve para todas galáxias; e) a Mond não se adapta à radiação cósmica de fundo (aquele tal de “cano fumegante” do Big Bang); e, finalmente, f) “a gravidade nem sempre aponta na direção onde a matéria ordinária está” – seja lá exatamente o que isso significa para a física – dando como exemplo cabal a existência do Bullet Cluster, ou Aglomerado-Bala.

Aglomerado-Bala… gostei deste nome. O Aglomerado-Bala é constituido por dois aglomerados de galáxias colidindo.

Essa colisão de jamantas é vista por Plait como o argumento decisivo contra a Mond e como o motivo de “tão poucos astrônomos duvidam seriamente da existência da matéria escura”. Até a Wikipedia informa que o Bullet Cluster é tido como a melhor evidência da matéria escura. Quando abordou o problema, Carroll foi taxativo: “a matéria escura existe”. Mesmo assim, negou que a fugidia matéria explique completamente o que se vê nos super-telescópios e que talvez sejam necessárias outras explicações para dar conta das observações.

Plait exagerou um pouco a postura de Carroll e disse que “não há motivos para se preocupar com a Mond” e que “a dita Mond realmente não funciona”. A tal de Mond pode até ser essa inutilidade toda mesmo, mas a brigada anti-incêndio ter sido acionada dessa forma só me convence de que a peleja pode não estar jogada. Assim como pensam muitos comentaristas nos blogs de ambos os cientistas.

Update: Ethan Siegel tem um post bastante didático sobre o incômodo da maior parte dos cosmólogos com a notícia de que a Mond se revelou uma desafiante, uma alternativa, para a matéria escura. É muito bacana, embora Siegel demonstre sua argumentação com outros exemplos da história da ciência que justificam o pé-atrás com relação a possíveis suposições de existência de determinada coisa pelo simples fato de que ela salva nossa explicação atual de como o mundo funciona (visto que é muito mais fácil ter resultados publicáveis com isso do que elaborar uma explicação alternativa desde o zero).

___

Minuto epistemologia.

A conclusão de espectador que posso tirar: este imbróglio é a evidência de que o conceito de evidência em ciência é tudo menos simples. Plait e Carroll podem estar certos com relação à matéria escura, mas talvez devessem considerar as questões epistemológicas que circundam as evidências em campo tão problemático quanto o da cosmologia. Especialmente quando afirmam ser evidência direta da matéria escura conclusões extraídas com interpretação e análise de uma observação de colisão entre aglomerados de galáxias.

E uma pergunta: deveríamos exigir reflexões epistemológicas dos nossos cientistas?

- Aristarco

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