“Não esperam ver uma mulher negra nesse papel”

Perto do aniversário de 100 anos da morte da sufragete Emily Davison, o Guardian perguntou a figuras proeminentes de diversas áreas: pelo que lutar, agora, no século 21? A sensacional resposta da cientista espacial Maggie Aderin-Pocock foi a seguinte:

One problem we need to tackle is the way society pigeonholes people according to their sex, creating real barriers to female aspiration. For instance, I’ve got a three-year-old daughter, and when I bought her a toy a little while ago – just a ball game – I was horrified to realise that the packaging described it as a boy’s toy. These stereotypes arise constantly, and although people sometimes say they have a biological basis, history refutes this. Seventy-five years ago it was considered really strange for a woman to become a doctor, and now around 50% of medical doctors are women. People often respond with surprise to the fact that I’m a space scientist – they’re not expecting to see a black woman in the role – and I’d like to see a time when those barriers didn’t exist, when girls believed they could do anything. I’ve long had an idea for an advert that would show two scenes in quick succession. A girl doing her physics homework being discouraged by her family, then shown 20 years later in a dead-end job. Followed by the same girl doing her homework, encouraged by her family, and shown, 20 years later, as the first person to walk on Mars.

 

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James Jeans e o universo efêmero

In some way the material universe appears to be passing away like a tale that is told, dissolving into nothingness like a vision. The human race, whose intelligence dates back only a single tick of the astronomical clock, could hardly hope to understand so soon what it all means. Some day perhaps we shall know: at present we can only wonder.

James Jeans, The Stars in their Courses (1931), p. 117.

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Que merda é essa?

Como é possível que as ruas não estejam, neste exato momento, cheias de gente com as mãos nos cabelos e de olhos arregalados, numa interminável oscilação entre o espanto contido e o descontrole histérico, entre o sussurro pensado e o discurso destrambelhado, indagando os transeuntes sobre que merda é essa?

Que merda é essa? Que merda é essa? A Terra está girando. A Terra está girando. A Terra tá girando! A gente vive num planeta. A gente vive. Num planeta. Que gira. E que é imenso. Imenso! A gente vive e morre num planeta. A gente brotou dele. A gente é uma formiguinha, uma ameba, perto dessa bola redonda, gigante, que quase não dá pra imaginar de tão grande. E a gente vive na casquinha dela, uma casquinha de ovo, toda rachada, de uma finura que não dá pra acreditar. E um terremoto arrebenta tudo se alguma coisinha sair do lugar e se mexer um pouquinho, nessa casca. E dentro da bolona é tão quente que uma montanha derrete, se desse pra uma montanha cair lá dentro, assim, de uma vez.

E a gente vive nisso! Numa porra dessas. Vive. Vive e morre. A gente se dissolve. A gente se dissolve! A gente é um tipo de coisa que se dissolve. E todas as coisas do nosso tipo se dissolvem – e já tiveram um monte, uma pancada de outras coisas meio diferentes que já não existem mais, mas que são do mesmo tipo nosso, desse tipo de coisa que se dissolve – todas as coisas do nosso tipo se dissolve, já se dissolveu e vai, puta merda, se dissolver. Mais cedo ou mais tarde. De uma forma ou de outra. A gente se dissolve e volta pra casca de ovo. E ninguém sabe até quando isso vai continuar, quando é que todo mundo vai se dissolver e umas coisas diferentes vão aparecer no nosso lugar. Porque parece que sempre foi assim. Essa é a regra da casca do ovo. Ela gera tudo, mas suga tudo de volta. Suga tudo. Até as sepulturas e os nomes, ela suga. É só esperar. Ela espera. Já durou uma eternidade, e vai durar outra. Praticamente pra sempre, quase. Pelo menos pra coisas como a gente, que praticamente aparecem e já somem, sugadas tão rapidinho, vai ser sempre difícil conseguir entender o que é o tempo da bola gigante.

Mas a bola gigante, o planeta, que gera e suga todo mundo de quem a gente já ouviu falar, e vai sugar todo mundo que a gente nem sequer vai conhecer, essa Terra não é nada. Nada. Em cima da nossa cabeça tem o céu, não tem? Mas o céu não é nada. A gente fala céu, como se fosse alguma coisa. Mas não tem nada em cima da nossa cabeça. Não tem teto. Aquilo ali não é um teto. Aquilo é nada. Nada.

Fora o nada tem algumas coisas. Tem a Lua, o Sol, as estrelas. São os astros, não é? É, o caralho! Astros… A gente fala astros e já pensa que é alguma coisa feita de coisa diferente do que a gente, aqui. Astros… Astro é coisa do céu, e aquelas coisas não estão lá no céu, porque o céu não existe! O céu é nada, o céu não é uma tenda de circo em que um monte de luzinha fica passando pra lá e pra cá. Não é que o Sol e a Lua e as estrelas tão tudo no céu. A gente faz parte do céu, junto com o Sol, a Lua e as estrelas! A gente, na casca da Terra, está no céu, girando nele, zanzando por ele, ao redor do Sol, indo com o Sol por aí. A gente, na casca da Terra, como a Terra toda, é feita da mesma coisa que tem nos astros. É por isso que o céu não existe, entenderam? O céu não existe!

A Lua é um outro mundo. Um outro mundo. Mundo em que dá pra ir pra lá e pra cá, que tem montanha também. Um mundo. Um tanto menor, que gira em torno da Terra. Como vocês podem dormir com isso? É um outro mundo lá, um mundo que você pode ver todo dia daqui, uma outra bola. E tem muitas outras, que ficam zanzando em torno do Sol como a Terra. Tem outras bolas, outros mundos, que também têm montanhas. Outros não têm montanhas. Outros têm mais ar do que qualquer outra coisa. Mas é tudo mundo, é tudo lugar em que daria pra andar, ou nadar, ou voar, se a gente não fosse tão fraco e ajeitado só pra Terra. Tudo girando em torno do Sol, como o nosso mundo. A grande diferença é que a gente morreria mais rápido lá do que aqui, nesse pontinho, nesse quase nada.

Pontinho, sim. Vocês já viram a Terra do espaço? Ela é azul e tal, cheia de nuvens, redonda. É bonita. Mas vocês aí, que estão me olhando da sala de jantar, que lavam o carro, limpam a orelha, escovam o dente e passam fio dental, vocês não viram ela de longe. De muito longe. Quanto longe? Não sei. Longe pra caralho. Pra lá do último planeta, da última bola que gira em torno do Sol. Já viram? Quase não dá pra ver. É um nada. Um pontinho.

A gente vive num pontinho. A gente vive. Num pontinho. Visto de longe, é um pontinho. Mas o longe pra caralho que eu falei é até longe. Só que não é assim tão longe, longe de verdade, longe que não dá pra ver a Terra nem fodendo. Longe mesmo é o seguinte. Vou explicar, e acho que vai ser agora que vocês vão começar a querer a ficar tudo meio espantado, estarrecido e pasmo como eu sou. Porque de tudo o que eu já falei até agora, talvez tirando a Terra sendo um pontinho, tudo isso vocês aprendem na escola e acabam ficando tudo meio anestesiado. Ninguém carrega na alma e sente de verdade a maluquice de que a gente tá tudo grudado numa bola gigante, que na verdade é uma merdinha de nada, no nada. Ninguém leva isso tudo até o fundo de quem realmente é, porque se levasse estava todo mundo aqui na rua comigo agora, com o olho esbugalhado, quase sem cabelo.

O Sol, vocês sabem o que ele é. Todo mundo sabe. O Sol é uma estrela. Mas o que significa isso são outros quinhentos. O que são as estrelas? Todo mundo sabe a xaropada: é um astro que produz luz própria, enquanto o resto, os planetas, as luas, os cometas, e etcetera, só refletem a luz das estrelas, e tal. Isso é xaropada. Vamos parar de repetir isso, porque já deu. Pode até ser verdade, mas e daí? Não deixa ninguém doido. O que deixa doido, o salcifufu da história toda, é que as estrelas são sóis. O Sol é uma estrela e as estrelas são sóis. Ligue os pontos.

Quem liga os pontos não pode só ficar aí na sala de jantar, lavando o carro, limpando a orelha, escovando o dente e passando fio dental. As estrelas são sóis, cada uma delas que a gente vê no céu. Esse monte de estrela aí. Ligou os pontos? Pra gente ver eles assim, como pontos, é porque esses sóis tem que tá muito longe, longe pra caralho, longe pra caralho!

A maioria desses sóis, porque são do mesmo tipo de coisa do Sol, deve ter planetas, outros mundos, outras bolotas, zanzando ao redor deles. E é uma caralhada de sol. Se só no nosso bairrinho, no quarteirão cósmico em que a gente vive, tem uma caralhada de sol, com uma caralhada de mundo ao redor, imagina o resto. E tem uma caralhada de galáxias. Uma caralhada, isso até onde a gente consegue ver. E os sóis nascem e morrem, e os mundos também nascem e morrem.

Por isso, não me venham dizer que não tem uma caralhada de coisas do nosso tipo, tudo espalhado por aí que nem micróbio numa pia, coisas que, como nós, surgem e somem assim, do nada, rapidinho, num estalo, espalhadas por aí em outros mundos, em outras cascas de ovo, coisas que vêem e amam outros sóis, que também percebem que a folhinha em que vivem e morrem é só uma parte de uma floresta sem medida. Coisas capazes de levar essa loucura toda até o fundo de quem realmente são, coisas que aparecem e se dissolvem em infinitas cascas de ovo, que saem para a rua, com os olhos esbugalhados, quase sem cabelo, perguntando que merda é essa, que merda é essa, que merda é essa.

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Starstuff (1)

Vision is itself a good greater than the perpetual motion without any definite direction which modernists regard as the blessed life. Cosmic vision ennobles the pathetic futility of our daily crucifixions.

Morris Cohen, Reason and Nature (1931), p. 14.

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O trânsito de Vênus

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Jornalismo científico dos jornalões brasileiros não sobreviverá a encontro cósmico com um buraco negro de incompetência

Com ambos os anões responsáveis por este recinto cheios de afazeres, deixamos o blog às moscas. Mas não custa nada voltar de vez em quando para comentar alguma notícia interessante de astronocoisas, não é?

Hoje saiu a notícia de que novas medições asseguram que Andromeda e Via Láctea estão mesmo em rota de colisão direta, o que deverá começar a se consumar daqui a uns quatro bilhões de anos. Ambas são galáxias espirais e provavelmente formarão no futuro uma só galáxia, elíptica.

A Folha de São Paulo, para não perder um costume de sua história recente de cobertura de astronomia, publicou a notícia de maneira ridícula. Segundo a Folha, o evento “mudará o Sol de lugar”. Isso não faz o menor sentido, já que o Sol, na verdade, fará parte de uma nova galáxia, resultado da colisão entre as duas espirais. Aliás, no momento em que a colisão se der, o Sol estará nos seus estertores, e adeus planeta Terra como o conhecemos.

Mas isso é o de menos. A reportagem ainda diz que a colisão deverá fazer a Via Láctea “perder sua forma achatada de panqueca”. Hein? Repete? Forma achatada de panqueca? É uma espiral! Se você, jornalista que escreveu essa sandice, quiser estabelecer alguma analogia com o público leigo, pode dizer que a Via Láctea tem um formato de disco (de vinil, CD, DVD, ou até mesmo Blu-Ray, fique à vontade), mas não de panqueca. Vou repetir: a Via Láctea NÃO tem a forma de uma panqueca. (Só faltava o(a) jornalista se justificar dizendo que se referiu à panqueca aberta).

Atenção editoria de ciência da Folha: cuidem com um pouco mais de carinho da seção de astronomia.

A matéria do Estadão foi menos pior, mas só um pouco, talvez por ser mais curta e haver menos espaço para bobagens. Porque ela diz, em subtítulo ainda, que “Terra e Sol sobreviverão”, o que, já sabemos, é uma coisa no mínimo irrelevante de se dizer nesse caso. A cereja do bolo estadônico fica com a velocidade da tal colisão: ela ocorreria numa velocidade de 1,9 km/h. Kilômetros por hora. Isso mesmo, devagar como uma velhinha de 100 (bilhões?) de anos.

E eu não sou astrônomo, sou apenas um historiador curioso com astronomia. Astrônomos profissionais não devem ler o noticiário sob pena de sofrerem um ataque apoplético.

Para uma cobertura de qualidade e por quem entende do assunto, fiquem com o blog do Phil Plait, Bad Astronomy.

- Aristarco

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Nebulosa da Cachoeira

Vi a Astronomy Picture of the Day agora há pouco e não pude deixar de compartilhá-la aqui.

Abaixo da imagem segue uma tradução rápida da fascinante descrição do “objeto” cujo nome técnico é HH-222.

Let´s go down the waterfall / Have ourselves a good time / It´s nothing at all

O que criou a Nebulosa da Cachoeira? Ninguém sabe. A estrutura vista na região de NGC 1999, no complexo da Grande Nuvem Molecular de Órion, é uma das mais misteriosas já encontradas no céu. Chamada HH-222, este esguio fluxo gasoso se estende por cerca de dez anos-luz e emite um incomum leque de cores. Uma hipótese é que o filamento de gás resulta do vento de uma estrela jovem impactando uma nuvem molecular próxima. Isso não explicaria, no entanto, por que a Cachoeira e fluxos mais pálidos parecem convergir numa luminosa mas incomum fonte de rádio não-térmica localizada na direção da parte superior esquerda da estrutura curvilínea. Outra hipótese é que a incomum fonte de rádio origina-se de um sistema binário contendo uma anã branca quente, uma estrela de neutron, ou um buraco negro, e que a Cachoeira é apenas um jato desse sistema energético. Tais sistemas, porém, são tipicamente fortes emissores de raios-x, e nenhum raio-x tem sido detectado. Por enquanto, o caso permanece sem solução. Talvez futuras observações bem escolhidas e excelente raciocínio dedutivo possam desvendar a verdadeira origem dessa enigmática nuvem.

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“Ninguém sabe” é quase sempre a resposta mais estimulante. O universo nunca deixará de ser um tanto nebuloso.

- Aristarco

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Outside In

Outside In é o nome de um filme projetado para telas gigantes a la IMAX, constituído de animações baseadas somente em imagens (milhões delas) feitas por sondas espaciais.

O que vemos no lindíssimo trailer abaixo deve ter sido feito com imagens captadas pela Cassini, que continua zanzando pelos arredores de Saturno enquanto escrevo.

A obra é dedicada a Carl Sagan e Stanley Kubrick.

Pra virar obra-prima, no entanto, a escolha da trilha sonora precisa ser kubrickiana, menos clichê do que aparenta ser no trailer. Mas não fiquemos só com comentários azedos: o filme deve ser espetacular!

5.6k Saturn Cassini Photographic Animation from stephen v2 on Vimeo.

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Possível fluxo de água em Marte

Veja as imagens e ouça a explicação de Alfred McEwan, do JPL/NASA.

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Retrato do cientista quando jovem

Interessante o texto de Tom Feilden, da BBC, sobre o livro Free Radicals, do science writer Michael Brooks.

Para Brooks, a ciência pós-Segunda Guerra “virou uma marca, como Coca-Cola, Disney ou McDonald’s”. Feilden continua:

A ciência provou o seu valor no calor da batalha, mas enquanto a penicilina e o radar ajudaram-nos a sobreviver, o espantoso poder destruidor da energia atômica venceu.

A importância da ciência foi reconhecida mas também vista com desconfiança, e a identidade da marca desse novo produto foi deliberadamente projetada para enfatizar sua subserviência à sociedade e reiterada por adjetivos como lógico, responsável, confiável, objetivo e racional.

“O cientista virou o monge de nosso tempo – tímido, constrangido, ansioso por ser chamado para ajudar”, [escreve Brooks].

Segundo Feilden, Brooks argumenta que a ciência nunca foi feita de conformismo anestesiado. Pelo contrário, a atividade científica “sempre tem sido uma busca radical, rebelde e anárquica”.

O livro chegará às prateleiras (faz algum sentido, ainda, essa expressão?) no Reino Unido no dia 7 de julho.

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Enquanto é difícil discordar do aparente espírito de valorização do inconformismo (que de fato faz parte da história da ciência moderna), o livro pode ser mais uma tentativa de vender carreiras científicas como algo cool, sexy, jovem. É de se esperar num país em que a estrela da divulgação científica seja alguém como Brian Cox (uma mistura de Carl Sagan com frontman de banda indie).

Parece um cartaz dizendo: “O governo está aumentando custos de sua formação acadêmica e cortando verbas de pesquisa, mas venham ver como é bacana ser cientista!”

A ver.

- Aristarco

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